Em declarações ao PaLOp News, o escritor referiu que é sempre com prazer que assina os libretos que lhe são solicitados pelo compositor português. "São já uns quatro ou cinco, não me recordo bem" - afirma Rui Zink.
Sobre o libreto que assinou para este trabalho, Zink diz que o libreto é "uma toalha de mesa para servir a música. Um bom libreto não faz
uma grande ópera nem um mau libreto deixa a obra pobre. As óperas de Mozart serão sempre de Mozart e não de quem escreveu os libretos" - afirma.
Para Rui Zink, não se trata de escrever o que se passou com Strauss Kan em Nova York mas sim "o aproveitar de uma história que serve de inspiração. Tem a história de um homem e de uma mulher que é a essência de todas as óperas. Depois tem um espaço fechado que é excelente para o teatro e ainda por cima tem um quarto que permite a brincadeira de fazer a "suite" - por isso chamar-se "Suite Hotel" - e tem crime e castigo e por isso permite as duas versões.
Numa sala completamente cheia de "apreciadores de boa música", Rui Zink viu desfilar o seu próprio libreto escrito para "um amigo de longa data" para no final referir que "Esta história tem a ambiguidade porque não sabemos ao certo o que aconteceu no quarto,porque, como nas violações não há testemunhas e onde isso acontece é sempre a palavra de um contra o outro. O culpado vai sempre tentar atirar as culpas para cima do inocente e essa ambiguidade é extraordinária" - diz.
Para o escritor português, "a vida é uma mentira desorganizada e a ficção tenta arrumar a vida. - Eu partilho a ideia que a ficção é mais verdadeira que a realidade só que sem o pormenor dos factos".
Sobre a relação entre a realidade e a mentira, ou sobre a ficção e a realidade, Rui Zink refere que "A ficção dura e tenta agarrar os pontos de longa duração da tragicomédia humana. A realidade está muito perdida no diz que disse e o jornalismo é muito quotodiano e a ficção pode escolher o que é mais importante. A ficção é um instrumento para contar a verdade e só tem piada se for para contar a verdade" - afirmou.
Para ilustrar as suas afirmações, Rui Zink refere que "há 2200 anos alguém escreveu a história do rapaz que matou o pai e casou com a mãe. 2000 mil anos depois, Freud descobriu que isso é científico. Todos os rapazes se apaixonam pelas mães. Felizmente não matam os pais, é simbólico, acontece quando têm cerca de 5 anos mas é real.
A ciência não é só a ficção que é mais verdadeira que a realidade mas é também a ficção que chega mil anos atrasada àquilo que a ficção e a literatura descobriram.
Como segundo exemplo, Zink refere Camões que "descobriu coisas simples sobre a contradição amorosa que só vieram a ser confirmadas por António Damásio 500 anos depois.
Camões já sabia que pensamos com o coração. António Damásio conseguiu provar isso 500 anos depois."
Quanto ao trabalho desenvolvido para Luis Soldado com esta Ópera de sala cheia, Rui Zink limitou-se a afirmar que não escreve.
"O meu trabalho não é escrever. É descalçar a bota." - referindo-se à relação que o escritor tem com o compositor ao longo da criação da ópera.






