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Encruzilhada Cultural

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Que na capital inglesa tem-se uma ebulição cultural e linguística, onde vários idiomas cruzam-se, não é uma novidade, pois trata-se de uma metrópole. Onde há uma grande diversidade racial, cultural e de costumes. Mas que a língua portuguesa está sendo falada e ouvida com grande representatividade, está! Aliás, monumentalmente! Na verdade costuma-se ouvir e dizer, que não há onde você vá que não encontre pelo menos um brasileiro, pois muitos são os  momentos que, aqui em Londres, ouvimos alguém que fala nosso idioma. Especialmente se nos encontramos em determinadas áreas da cidade onde a incidência de falantes da língua portuguesa é grande e onde os mesmos estão concentrados. Temos o “Little Portugal” nas localidades de Stockwell, Oval, Vauxhall, e alguns outros bairros, no Sul de Londres, localidades como Bayswater, que já há muito tempo é conhecida como “Brasilwater”, na área central da cidade e por aí afora.
O número de imigrantes sul americanos está a crescer muito, há uns anos atrás o maior número de imigrantes da América do Sul era advindo da Colômbia, 24.040  total no Reino Unido e 15.271 em Londres. Número este, que  já foi ultrapassado pelos brasileiros, segundo dados de uma pesquisa feita pela University of London.
Chega mesmo a impressionar e até mesmo as vezes, fazer rir, quando conversas são  inevitavelmente  interceptadas pelos ares londrinos. Como o número de cidadãos da Pátria amada Brasil  está a crescer,  não é difícil os brasileiros cruzarem uns com os outros pelos caminhos desta cidade real. Participando em conversas mesmo sem querer. Por muitas vezes as conversas são tão explícitas, em alto e bom tom que querendo ou não se participa da mesma. Acredito que muitos dos que lerão este texto e que se encontram na cidade de Londres, automaticamente se lembrarão de algum episódio em que isto acima mencionado aconteceu.
Sinceramente algumas pessoas ainda tem a impressão de que não estão sendo entendidas e com isto tem a falsa sensação de liberdade quando falam, muitas vezes, de suas vidas privadas, ao telefone ou mesmo com alguém, no ônibus, numa composição do metrô, em um estabelecimento comercial, ou na rua. Os casos são vários, daria até para transformá-los em case studies, devido ao crescente número de exemplos e os variados casos de conversas cruzadas por esta cidade. 
Numa ocasião, em um ônibus que faz o trajeto Croydon/Brixton, uma jovem esteve todo o percurso, desde Croydon até a altura de Streatham, a relatar sobre um suposto casamento de conveniência, e a, antecipadamente celebrar o documento de residência que estaria por sair. Esteve a falar desta particularidade com riqueza de detalhes, falando sobre o cidadão que ela havia casado para conseguir ter documento que lhe garantiria um estatuto legal para viver no Reino Unido, até sobre valores que estiveram envolvidos nesta negociação matrimonial. Enquanto isto, quem esteve a ouvir, sentiu vontade de interromper a conversa e pedir para a mesma parar de falar publicamente de situação tão particular e delicada, ainda mais por estar tão próxima do órgão responsável por controlar a imigração, o Home Office. Quem presenciou esta conversa contou:  “Como ela estava a falar com um tom de voz que várias pessoas podiam ouvir, fiquei nervosa por ela, pois assim como eu, uma mera cidadã brasileira estava a ouvir toda a conversa dela, uma outra pessoa, talvez  ligada a imigração, poderia estar ouvindo também, a espécie de relato, e não ser conveniente e seguro para ela”. “Como alguém fala tão abertamente em um transporte público, sobre algo tão pessoal, eu não sei!”
No último dia dos pais, o domingo 19 de Junho de 2011,  dois homens na linha de metrô Northen Line, estavam a conversar. Aparentemente, um vive por aqui há mais tempo, e com um tom de experiência, explicava algumas coisas daqui para o outro. Eram dois homens brasileiros, e sentados um frente ao outro, um dizia: “Ao te olhar percebe-se que você não está com a vida sexual ativa.” Você está com quantos anos? 48 não é? Aqui neste país, homens a partir dos 50 anos, tem direito a Viagra grátis. Quem esteve a ouvir sentiu-se constrangido ao participar, em parte, da conversa onde, a situação sexual de um compatriota que viajava com ele na mesma composição do metrô em Londres, esteve verbalmente exposta. Conversaram bastante sobre variados temas até que os que ouviam a conversa desceram na estação de Oval no Sul da cidade deixando-os a conversar, só não se sabe se em paz!
Já em um onibus da linha 159, duas brasileiras conversavam sobre suas atividades profissionais, e uma dizia pra outra: “Pôxa, você nem parece que dança! Vê a fulana, ela também dança. Mas você, nem parece! 
Numa tarde ensolarada de uma segunda-feira do mês de junho, duas brasileiras estavam com seus respectivos bebês em seus carrinhos, em uma grande loja de produtos esportivos no Centro de Londres. Quando dirigiam-se para o andar térreo, a porta do elevador abriu-se e logo a seguir fechou-se, sem que as mesmas tivessem saído do elevador. Não demorou muito para que a porta abrisse novamente e elas pudessem então sair. Ao saírem do elevador, deparam com um numero consideravelmente grande de pessoas que entrariam no elevador, dentre eles um casal de brasileiros, que  começaram a falar mal das mulheres. Para uma delas, eles não perceberam se tratar de brasileiras, daí começaram a criticar as mulheres, atribuindo a elas a culpa do elevador ter aberto a porta e fechado antes que as mesmas saíssem. Iniciaram uma ofensiva crítica: “Ficam a conversar, isso é que dá!” O elevador abriu a porta e elas não saíram. Daí a mulher emendou, também num tom crítico e grosseiro: “Devem estar pensando que estão na feira!”
Aliás, particularmente, não teve uma vez que eu tenha ido a esta grande loja de produtos esportivos, que eu não tenha deparado com um brasileiro por lá.
Outra vez dentro de um ônibus, dois brasileiros conversavam sobre trabalho e um deles indicava pro outro como proceder, quando chegasse ao local para trabalhar como pintor. “Direi que você já tem experiência. O negócio é o seguinte, não tem muito mistério não. Você passa uma mão de tinta na horizontal e vem descendo na vertical até pintar toda a parede”.
Enfim, todos os cidadãos  que tem o português como primeira língua, provavelmente já estiveram em situações parecidas com estas acima citadas, onde ouviram ou foram ouvidos em conversas públicas.
Um estudo sobre brasileiros no Reino Unido chamado Brazilians in London: a report for the strangers into citizens campaing, feito pelo departamento de Geografia da Queen Mary /University of London,  mostra que a comunidade brasileira em Londres é muito maior do que as estimativas oficiais. Estima-se que haja cerca de 200.000 brasileiros em todo o Reino Unido e  aproximadamente cerca de 130.000 a 160.000 residindo em Londres. Números estes que evidentemente já aumentaram. E que isto pode ser facilmente percebido devido o número de negócios e serviços formais e informais que surgiram na última década que são oferecidos por e para brasileiros.
São muitos os casos, alguns engraçados, outros constrangedores e que cada vez mais serão comuns por aqui. Já que o numero de cidadãos brasileiros está em ordem crescente.
Sendo assim, nas esquinas desta cidade você pode virar à esquerda ou à direita e se deparar com uma encruzilhada cultural e linguística!
 

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