Este artigo começa com a citação de uma das mais famosas composições imortalizada por Bezerra da Silva e Seu Jorge, onde a favela já era caracterizada como um problema da sociedade moderna. Para entendermos um pouco este fato que por algum tempo não fora encarado como um problema de caráter social, precisamos conhecer a sua origem e os fatores que foram determinantes para sua existência.
No Rio, os primeiros registros de pessoas morando de modo improvisado em morros são da década de 1860. Cerca de 20 anos depois, já era possível ver conjuntos de famílias vivendo em casebres de madeira nos morros de Santo Antônio, do Castelo e do Senado, no centro da cidade. Enquanto isso, na zona norte, o morro do Andaraí também começava a ser habitado. Mas eram ocupações incipientes. Até que, em 1893, a demolição do grande cortiço Cabeça de Porco levou seus moradores a construírem barracos no morro da Providência. O local se tornaria, quatro anos depois, símbolo do surgimento das favelas.
Em 1897, depois de massacrar a comunidade do líder religioso Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos, muitos soldados vieram ao Rio. Buscavam recompensa por sua atuação no conflito, dinheiro e moradia, segundo havia sido prometido pelo governo presidencial. Enquanto esperavam uma atitude do governo, os ex-combatentes foram se estabelecendo nas encostas do morro da Providência. Não demorou para que eles passassem a chamar o local de morro da Favela, homenageando um monte de mesmo nome situado próximo a Canudos (o morro baiano, por sua vez, ganhara esse nome por causa de um tipo de arbusto – chamado “favela” – que crescia nele).
A história dos veteranos de Canudos acabou se transformando no “mito de origem” das favelas, embora elas já existissem antes. Esse descompasso entre o que é real e o que é imaginário não é novidade nenhuma quando o pessoal do “asfalto” (a parte da cidade dotada de boa infra-estrutura) pensa sobre o “morro” (sinônimo de favela, apesar de hoje muitas ficarem em terreno plano). Em vez de buscar a integração do morro com o asfalto, as autoridades se recusavam a aceitar a existência das favelas. Quando possível, arrasavam habitações populares e expulsavam seus moradores. O resultado dessas políticas foi, em geral, o contrário do desejado. No início do século 20, uma nova onda de demolições de cortiços impulsionou o crescimento das favelas:o célebre “bota-abaixo” promovido pelo prefeito Pereira Passos a partir de 1904. Para que grandes avenidas fossem traçadas, cortiços e casebres foram derrubados, pois o objetivo era transformar o Rio em uma capital nos moldes de Paris, sem pobreza à vista.
Nos dias de hoje, o “problema” se tornou ainda mais sério, com o espaço geográfico cada vez mais reduzido, muitas famílias buscam construir suas moradias em locais mais próximos a cidade perto do centro onde tudo acontece, talvez numa tentativa de se integrar de uma vez por todas na sociedade, visando direitos e oportunidades iguais. Infelizmente, muitas famílias constroem suas moradias nas chamadas áreas de risco condenadas pela Defesa Civil do Estado, onde o risco de deslizamento de terra é muito grande devido a inclinação do terreno e o desmatamento gerado pela necessidade de abrir uma clareira na mata que cerca a cidade. Com o corte das árvores, o solo se enfraquece e facilmente se desprende do resto do terreno causando uma espécie de avalanche de barro e tijolos varrendo tudo que estiver em seu caminho. Catástrofes como as de Teresópolis e Petrópolis na região serrana do Rio, infelizmente chegam a ser comuns na época do verão carioca, pois sabe-se que com as chuvas esses desastres são pratimente inevitáveis uma vez que a Defesa Civil e a Prefeitura condenam estas áreas e removem as famílias, mas, cedo ou tarde por falta de condições ou de uma infra-estrutura de política pública eficaz que supostamente deveria dar apoio e suporte a esses flagelados, muitos acabam por não ter escolha a não ser voltar para esses locais como se estivessem conformados em aceitar a realidade a espera do inevitável.
Luciano Demetri Gonçalves
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