Palop News, Noticias em Portugues no Reino Unido

  • Aumentar fonte
  • Tamanho normal
  • Diminuir fonte
Home Cronistas Luciano Demetri Gonçalves O homem bom que desafiou Salazar. Seu nome, Arístides de Sousa Mendes, ou como alguns o chamam o “Schindler português”

O homem bom que desafiou Salazar. Seu nome, Arístides de Sousa Mendes, ou como alguns o chamam o “Schindler português”

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
Nascido em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, distrito de Viseu, Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, pertenceu a uma família aristocrática rural, católica, conservadora e monárquica (ele também católico e monárquico). Seu pai era membro do supremo tribunal. Pelo lado materno era descendente de D. Fernando de Almada (2º Conde de Avranches). Pelo lado familiar "Sousa", descendente de Madragana Ben-Bekar (de quem houve filhos El-Rei D.Afonso III). Esta Senhora pertencia à Comunidade Judaica de Faro, cuja ascendência provinha do próprio Rei David de Israel.
Aristides instala-se em Lisboa em 1907 após a licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra, tal como o seu irmão gêmeo. Ambos enveredaram pela carreira diplomática. Aristides ocupou diversas delegações consulares portuguesas pelo mundo, entre elas, Zanzibar, Brasil e Estados Unidos.
Em 1929 é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia, cargo que ocupa até 1938. O seu empenho na promoção da imagem de Portugal não passa despercebido, foi condecorado por duas vezes por Leopoldo III, rei da Bélgica, fazendo dele oficial da Ordem de Leopoldo e comendador da Ordem da Coroa, a mais alta condecoração belga. Durante o período em que viveu na Bélgica, conviveu com personalidades ilustres, como o escritor Maurice Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, e o cientista Albert Einstein, Prémio Nobel da Física. Depois de quase dez anos de serviço na Bélgica, Salazar, presidente do Conselho de Ministros e ministro dos negócios estrangeiros, nomeia Sousa Mendes cônsul em Bordéus, França. 
Aristides de Sousa Mendes permanece ainda cônsul de Bordéus quando tem início a Segunda Guerra Mundial, quando as tropas de Hitler avançam  rapidamente sobre a França. Salazar optara pela  neutralidade de Portugal.
De acordo com a Circular 14, Salazar ordena aos cônsules portugueses espalhados pelo mundo que recusem conferir vistos às seguintes categorias de pessoas: "estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio; os apátridas; os judeus, quer tenham sido expulsos do seu país de origem ou do país de onde são cidadãos".
Entretanto, em 1940, o governo francês refugiou-se temporariamente na cidade, fugindo de Paris antes da chegada das tropas alemãs. Milhares de refugiados que fogiam do avanço Nazi dirigiram-se a Bordéus. Muitos deles afluem ao consulado português desejando obter um visto de entrada para Portugal ou para os Estados Unidos, onde Sousa Mendes, o cônsul, caso seguisse as instruções do seu governo, distribuiría vistos com parcimónia.
Já no final de 1939, Sousa Mendes tinha desobedecido às instruções do seu governo e emitido alguns vistos. Entre as pessoas que ele tinha então decidido ajudar encontra-se o Rabino de Antuérpia Jacob Kruger, que lhe faz compreender que há que salvar os refugiados judeus.
A 16 de junho de 1940, Aristides decide conceder  visto a todos os que o pedissem: "A partir de agora, darei vistos a toda a gente, já não há nacionalidades, raça ou religião". Com a ajuda dos seus filhos e sobrinhos e do rabino Kruger, ele carimba passaportes, assina vistos, usando todas as folhas de papel disponíveis.
Confrontado com os primeiros avisos de Lisboa, ele terá dito: "Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus".
Uma vez que Salazar tomara medidas contra o cônsul, Aristides continuou a sua actividade de 20 a 23 de Junho, em Baiona (França), no escritório de um vice-cônsul estupefato, e mesmo na presença de dois outros funcionários de Salazar. A 22 de junho de 1940, a França pediu um armistício à Alemanha Nazi. Mesmo a caminho de Hendaye, Aristides continua a emitir vistos para os refugiados que cruzam com ele a caminho da fronteira, uma vez que a 23 de Junho, Salazar demitira-o de suas funções de cônsul. Apesar de terem sido enviados funcionários para levar Aristides de volta a Portugal, este lidera com a sua viatura  uma coluna de veículos de refugiados e guia-os em direção à fronteira, onde, do lado espanhol, não existiam telefones. Por isso mesmo, os guardas fronteiriços não tinham sido ainda avisados da decisão de Madrid de fechar as fronteiras com a França. Sousa Mendes impressiona os guardas aduaneiros, que acabariam por deixar passar todos os refugiados, que, com os seus vistos puderam continuar viagem até Portugal.
Já em Portugal, ele recebe seu castigo, a 8 de Julho de 1940, Aristides foi  punido pelo governo de Salazar, que priva o diplomata de suas funções por um ano, diminuindo em metade o seu salário, antes de o enviar para a reforma. Para além disso, Sousa Mendes perde o direito de exercer a profissão de advogado. A sua licença de condução, emitida no estrangeiro, também lhe é retirada.
O cônsul demitido e sua família, bastante numerosa, sobrevivem graças à solidariedade da comunidade judaica de Lisboa, que facilitou a alguns dos seus filhos os estudos nos Estados Unidos. Dois dos seus filhos participaram no Desembarque da Normandia no dia D de 6 de Junho de 1944.
Ele frequentou, juntamente com os seus familiares  a cantina da assistência judaica internacional, onde causou impressão pelas suas ricas vestimentas e sua presença. Certo dia, teve de confirmar: "Nós também, nós somos refugiados". Em 1945, Salazar felicitou-o por Portugal ter ajudado os refugiados, recusando-se no entanto a reintegrar Sousa Mendes no corpo diplomático.
A sua miséria será ainda maior: venda dos bens, morte de sua esposa em 1948, emigração dos seus filhos. Aristides de Sousa Mendes faleceu muito pobre, a 3 de Abril de 1954, no hospital dos franciscanos em Lisboa. Não possuindo um fato próprio, foi enterrado com um hábito franciscano. 
Uma nota não menos importante, mas de caráter pessoal será acrescentada por mim o autor; como Luso-brasileiro sinto orgulho de alguém como Sousa Mendes que por vezes salvou tantas vidas quanto Oscar Schindler sem nenhum interesse financeiro, senão o de puramente fazer o bem, mas como judeu, é de previlégio inenarrável saber que o ilustríssimo senhor Aristides é um dos responsáveis pela sobrevivência dos judeus, meu povo!
 

Comentar


Código de segurança
Actualizar


Tradutor

Portuguese English French German Italian Spanish