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Home Cronistas Luciano Demetri Gonçalves A Guerra do Paraguai... ou seria da Inglaterra?

A Guerra do Paraguai... ou seria da Inglaterra?

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Muitos estudiosos já perceberam que a “Guerra do Paraguai” ou melhor caberia, Guerra contra o Paraguai no século XIX, não foi uma disputa de mocinhos e bandidos, porém, pouca coisa foi escrita sobre esse importante acontecimento, que normalmente é abordado de forma não aprofundada. Para compreendermos esse conflito, é necessário entender o conjunto de interesses envolvidos na relação  Brasil e Paraguai e aprofundar o entendimento sobre o papel do imperialismo inglês.
O Paraguai tornou-se independente em 1811, no quadro de crise do Antigo Sistema Colonial espanhol, quando da dominação napoleônica na Península Ibérica. Assim como em outras regiões da América do Sul, a elite criolla liderou o movimento, porém permaneceu vinculada à antiga ordem, mantendo seus tradicionais privilégios. A necessidade de desvincular-se das pretensões de Buenos Aires contribuiu para o inicio da formação do Estado Nacional Paraguaio, que se tornou mais efetiva a partir de 1814, com a ascensão de José Rodrigues de Francia. Iniciava-se um governo centralizado de caráter ditatorial. O poder concentrou-se nas mãos de El Supremo, ditador perpétuo do país. Francia iniciou uma transformação radical no país, uma vez que a sua ditadura passou a apoiar-se nas camadas populares, com a eliminação da escravidão, a redução drástica do poder da Igreja Católica e com a criação das “Estâncias da Pátria”, fazendas estatais, onde o trabalho era comunitário, sendo que a metade da produção ficava com o Estado; deu início ainda à organização do ensino, que em poucos anos acabaria com o analfabetismo no país.
Apesar da precariedade da economia do nova nação, há um processo de crescimento e lentamente Francia alcançava a modernização: a produção agrícola aumenta e forma-se uma base de sustentação interna fora do modelo britânico, já dominante na maioria da América do Sul. Ao mesmo tempo formou-se uma grande oposição a seu governo fora do Paraguai; a antiga elite desterrada e as camadas dirigentes das nações vizinhas, particularmente a Argentina e o Brasil. O Paraguai tem, desde o início, grande dificuldade de exportar sua produção – os principais produtos eram o fumo e o erva mate – uma vez que depende do Rio da Prata, dominado pelos mercadores de Buenos Aires.
Em 1840 com a morte de Francia, assume o poder Carlos Antonio Lopez, apoiado num discurso de “modernização” e “progresso”, Lopez manteve a centralização política e aprofundou o isolamento do país frente ao capital internacional. Ferrovias e pequenas industrias foram criadas com a contratação de especialistas estrangeiros e a educação continuou a ser estimulada pelo governo. “Tudo o que o Paraguai consome, ele mesmo produz”. É importante saber que a criminalidade havia praticamente desaparecido e a população índia que era de 80% passa a desfrutar dos mesmos direitos civis que a população branca.
Em 1862 Francisco Solano Lopez assume o lugar do pai e preserva a política ditatorial. Solano pretendia construir o “Grande Paraguai”, porém a situação interna e externa se modificavam rapidamente e levariam o país à guerra.
O Brasil, única monarquia na América e região que preservou a unidade territorial após a independência, vivenciou duas décadas de intensas lutas regionais ao mesmo tempo em que preservou as estruturas coloniais. O Primeiro Reinado e o Período Regencial foram marcados por grave crise, que começou a ser superada com o governo de D Pedro II, com o aumento das exportações e com a consolidação do Estado Nacional.
Apesar de adotar um modelo político monárquico centralizado, o Brasil era governado pelas elites agro-exportadoras, influenciada por uma pequena elite urbana vinculada à importação e exportação e associada ao capital Inglês.
Uma maior estabilidade política verificou-se após 1850,que por sua vez foi possível com o aumento das exportações, principalmente de café. No entanto, se as exportações aumentavam, o mesmo acontecia com as importações, determinando um crescente déficit nas finanças do Estado. A crise econômica aprofundava-se, em grande parte devido à submissão do país ao capitalismo Inglês. A Maior parte da produção agrícola era exportada para a Inglaterra, assim como a maior parte das importações provinham de lá. Os investimentos em infra estrutura eram feitos por banqueiros ingleses, que ao mesmo tempo controlavam bancos e as casas de importação e exportação e emprestavam dinheiro diretamente ao Estado brasileiro. Mesmo durante a ruptura das relações diplomáticas entre os dois países, as relações comerciais foram mantidas.
A Inglaterra é vista tradicionalmente como a grande responsável pela guerra entre o Brasil e o Paraguai. Uma das dificuldades da História é definir o peso que cabe a cada um dos interesses envolvidos, uma vez que a Inglaterra é a grande potência imperialista da época.
O século XIX foi caracterizado pela Segunda Revolução Industrial, pela expansão imperialista sobre a África e Ásia e pela “divisão internacional do trabalho”, fruto do imperialismo de poucas nações. A Inglaterra continuou a ser a maior potência industrial, porém passou a ter concorrentes em relação ao desenvolvimento tecnológico, necessitando garantir cada vez mais o controle sobre suas colônias e áreas de influência. Na América, os países recém independentes tinham um papel fundamental dentro dessa nova ordem capitalista, e nesse sentido, a economia paraguaia destacava-se, fugindo da órbita do imperialismo inglês colocando em risco seu mercado de exportação para América do Sul.
Para a Inglaterra, a preservação de suas áreas de influência era vital para a preservação de sua posição hegemônica, e para isso, os mecanismos usados foram variados, porém sempre com caráter imperialista quando a diplomacia e o poder econômico não funcionavam. A intervenção militar direta ou indireta era o caminho usado, justificada tanto pelos interesses econômicos como pelo discurso racista, de superioridade em relação a outros povos, como por exemplo os “índios” paraguaios.
Forma-se então a chamada “Tríplice Aliança” que envolveu Brasil, Argentina e Uruguai numa guerra patrocinada pela Inglaterra contra o Paraguai, que perdeu quase 90% de sua população masculina com muitas mulheres e crianças levadas para o Brasil, Uruguai e Argentina. 
Os países "vencedores" estavam tão endividados para com a Inglaterra que muito do que hoje chamamos de "dívida externa", recentemente "internalizada" no Brasil e na Argentina por ordem do FMI, começa com aquela guerra impopular  contra a única Nação industrializada da América Latina naquele momento. O Paraguai nunca mais recuperou economicamente e até os dias de hoje muitos vivem em estado de pobreza ou até mesmo abaixo da chamada linha de pobreza devido a essa guerra.


 

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