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Histórias de vida

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Como vai D. Leonor? Gosto muito de ler os seus artigos, tenho aprendido coisas que nem imaginava.    Não sei se vai responder-me, mas vou contar-lhe a minha história (por favor não ponha o meu nome).  Tenho 50 anos, mas parece que tenho 60, toda a minha vida tenho  sido muito sacrificada, sou a segunda mais velha de 8 irmãos e desde criancinha sempre ajudei a minha mãe a cuidar da casa, dos meus irmãos, ir lavar roupa ao rio, e também a trabalhar nos campos e cuidar dos animais.
Conheci o meu marido com 19 anos e logo nos casamos. Ele sempre teve a mania de ter um negócio e por causa disso foi trabalhar para França, andou por lá 10 anos, e com muito sacrificio conseguimos  amealhar o suficiente para abrir um café na nossa terra.
Abrimos o café e durante alguns anos trabalhei muito para poder sustentar a nossa casa e dar educação a 4 filhos que temos e levar o negócio para a frente, mas o meu marido não tinha cabeça para aquilo e começamos a ter dívidas. Durante 5 anos foi um um martírio; sempre com empréstimos  e acabamos por ficar mal nos bancos e sem poder pagar aos fornecedores.
Mas o pior de tudo é que ele começou a beber e a bater-me. Dizia que tinhamos ficado cheios de dívidas  por minha culpa porque eu não estava a cuidar bem do café.  As coisas pioraram de tal maneira que os meus filhos tiveram que falar com o pai e dizerem que não admitiam que ele me batesse mais e que se fosse preciso iam à policia.  Ele prometeu que não ia mais beber nem bater. Durante algum tempo até conseguiu mas depois voltou a beber.
Foi quando há 6 anos decidimos vir para Inglaterra, porque não tinhamos mais condições de trabalhar lá. Fomos para a Irlanda trabalhar numa fábrica de peixe, mas ele não gostou e passados 2 meses mudamos para a Escócia e fomos trabalhar numa fábrica de saladas. Lá, ele conheceu uns portugueses e começaram a juntar-se para jogar as cartas e ele voltou a beber. Cada vez que eu o contrariava ou dizia que eles não eram boa companhia ele começava a dar-me porrada. Um dia ele teve uma discussão com um polaco e andaram os 2 à pancada e acabaram por serem ambos despedidos. Voltamos a mudar de cidade, que é onde moramos agora. Ele aqui tambem fez amizades com outros portugueses, mas já não bebe tanto, mas quando se irrita ameaca-me logo que me parte os c.....
Sou muito infeliz, não falo com ninguém e não tenho amigas porque não quero que saibam da vida que levo, nem os meus filhos sabem de nada. Eles pensam que o pai mudou. Além disso ele disse que se eu contar alguma coisa da nossa vida que dá cabo de mim, não sei porque ele é assim. Diga-me o que devo fazer.
Agora sinto-me mais aliviada porque desabafei, um grande beijinho e que Deus a proteja. 
Querida amiga, ao ler o seu email tentei visualizar os tempos difíceis que passou, uma infância omitida em favor da família e do trabalho fez de si uma pessoa ponderada, comedida e com grande espírito de sacrifício, além de uma maturidade bem precoce.
Pelo contrário o seu marido parece não ter desenvolvido essas notáveis qualidades e pelo que conta, ele desde cedo tinha o “bichinho” para ter o próprio negócio – o que até é louvavel no ponto de vista empresarial. Atá aí nada de errado  na vossa vida, mas quando as vossas finanças começaram a sofrer uma quebra (dívidas), o seu marido começou a mudar de comportamento.
Dá-se o nome “transferência de culpa” à atitude que o seu marido começou a ter para consigo. Vou dar um exemplo: quando conquistamos alguma coisa, costumamos atribuí-la às nossas virtudes ou capacidades, (no caso se o café tivesse sido um sucesso); já os nossos fracassos não têm nada a ver com os nossos defeitos ou incapacidades, mas sim por culpa dos outros (como fracassou, ele acusou-a dessa falência). Ou seja ele viu-se frustrado porque viu os seus planos falharem. Sentiu-se impotente porque não conseguiu reverter o prejuízo, e injustiçado porque não se considerava merecedor de tal infortúnio. Transferir a responsabilidade para a si, trouxe ao seu marido um falso conforto e mostra a falta de maturidade e crescimento pessoal dele.
Mas a parte gravíssima vem com a  bebida e posteriormente com a violência contar si. Está provado que o consumo de álcool versus violência doméstica e de 100%.
Infelizmente tem ainda muita mulher que sofre em silêncio os abusos feitos contra ela, a violência  e aceita com medo de uma violência ainda maior – o atentado à própria vida.
A senhora provavelmente vem de uma família onde aprendeu que deve total obediência ao marido, ou  aprendeu que divórcio não existe depois do casamento, ou aprendeu que mulher divorciada é mulher perdida, ou por medo de criar os filhos sózinha, ou porque já esta com alguma idade e não quer ficar sózinha, ou, ou, ou, ou...há tantos ou’s minha amiga que é impossível enumera-los todos aqui, mas eles existem e são a prova viva de que milhares de mulheres continuam a levar uma vida - se é que se pode chamar a isso vida – cheia de violência e maus tratos sofrendo tudo isso em silêncio. Posso entender todos esses ou’s e ainda assim discordar deles.
A mulher é um ser único, uma criação divina, que merece honra, respeito, carinho, empatia e delicadeza no trato. O dom da maternidade faz-nos ainda mais especiais, por isso qualquer agressão e intoleravel e criminosa.
Desde criança sempre gostei muito da história de Adão e Eva, especialmente da parte em que o Senhor retirou uma costela  ao Adão para criar uma companheira para ele e dessa maneira apareceu a  Eva. Independentemente da história ser ligada à religião, a historia só em si é de uma beleza, delicadeza e ternura sem igual; ela simboliza que a mulher faz parte do corpo do marido – e quem é que quer fazer mal a si próprio?
Ainda analizando a história, se a costela foi retirada da lateral do peito, também simboliza que a esposa não está atrás nem à frente do marido mas sim a seu lado, significando parceria, suporte, apoio, cumplicidade e muito amor.
É lógico e sabido que homem e mulher têm papeis diferentes a desempenhar nesta vida, mas essas diferenças em vez de separar,  existem para os juntar ainda mais. Esposo e esposa não são rivais nem estão em uma competição um com o outro. O casal precisa encontrar e edificar uma base sólida entre os dois para que possam ser o suporte na criação e educação dos filhos, assim como no bem estar social e económico da familia.
Eu não posso de maneira nenhuma indicar-lhe o que fazer na sua vida, isso e um assunto que diz respeito a si e à sua familia. Esse assunto merece ser avaliado criteriosamente. A senhora precisa fazer um balanço completo da sua vida. Só a senhora sabe como é o seu dia a dia e até quando vai aguentar o medo e os maus tratos. Se estiver disposta a fazer essa análise vai precisar de muita coragem e apoio especialmente dos seus filhos.
Desejo  querida amiga, que possa encontrar o caminho certo para ter uma vida mais feliz e plena e seja qual for a sua decisão, sempre encontrará em mim uma amiga que a apoia incondicionalmente. O artigo que está em baixo descreve mais em pormenor a violência doméstica, leia-o com atenção.
Um grande beijinho
Para as amigas leitoras Francelina, Raimunda, Cristina, Maria, Saozinha,  America, Lucileia  e Mariana, este artigo foi escrito a pensar em vocês. Um grande abraco.
O que é a violência doméstica?
Ela pode tomar a forma de violência psicológica e mental, que inclui agressões verbais, perseguição, clausura, privação de recursos físicos e financeiros, dificultação de contactos com familiares ou amigos. Em muitos casos chega à agressão física, que pode ir das violações, empurrões, beliscões, pontapés, espancamentos, e até a morte. Os casos de violência doméstica dizem respeito a todos. Deixaram de ser assunto privado, passaram a ser considerados crime público, um verdadeiro atentado e afronta aos direitos humanos
A violência doméstica tem fases ou ciclos, a saber:
1 – Fase de “acumulação de tensão” 
A irritabilidade do homem vai aumentando sem razão compreensível e aparente para com a mulher. Intensificam-se as discussões por questões irrelevantes e as agressões verbais. 
2 – Fase de “explosão violenta” 
O homem descontrola-se e concretiza os actos violentos. Insulta e bate na companheira, atira e parte objectos, embebeda-se, permanece calado vários dias, agride emocionalmente. O homem trata de demonstrar a sua total superioridade em relação à mulher. 
3 – Fase da “lua-de-mel” 
Na verdade não é correcto chamar a este período de “lua-de-mel”, já que este bom momento pode não ser tão idílico: “ele” decide quando começa e quando é que termina. Pode ser o tempo mais difícil para a mulher que se sente confusa e desorientada. Seria mais adequado chamar-lhe período de “manipulação afectiva” porque o agressor se sente contrariado depois de cometer o abuso. Neste momento de “desdobramento emocional”, sente remorsos pelas suas atitudes. Pede perdão, chora, promete mudar, ser amável, bom marido e bom pai. Esta atitude costuma ser convincente porque o agressor se sente culpado. E a vítima tende a acreditar numa mudança. 
4 – Fase de “escalada e reinício do ciclo” 
Uma vez perdoado pela companheira, começa de novo a fase da irritabilidade, a tensão aumenta e termina a fase relativamente agradável. Quando ela tenta exercer a autonomia recém-conquistada, ele sente de novo a perda de controlo sobre ela. Tem início uma nova discórdia e com ela o reiniciar do ciclo da violência.
4 – Será minha a culpa? 
Não, de modo nenhum! Muitas vítimas culpabilizam-se a si próprias depois de episódios de agressões físicas e psíquicas. Esse sentimento de culpa provém da estrutura patriarcal: o homem é quem exerce a autoridade na família e a mulher sente-se culpada se não aceitar este poder violento. Mas os maus tratos não têm qualquer justificação. O único culpado da violência é o agressor, nunca a vítima. 
5 – O que é o síndroma da dependência afectiva? 
É uma ligação emocional que impede a vítima de se separar do seu agressor. É muito frequente em mulheres maltratadas que vivem isoladas porque o agressor não as deixa relacionar-se com ninguém. Ele é todo o seu mundo, é o pai dos seus filhos, ela continua a acreditar que o ama. Isso leva-a a perdoar continuamente as agressões e humilhações do seu agressor e paralisa-lhe a capacidade de agir e romper com a relação violenta. Também acredita e tem esperança que o marido mude, ela sente muita vergonha e culpa, tem medo das represálias, depende economicamente dele, sente necessidade de proteger os filhos e depois as crenças religiosas sobre o casamento, etc..
Agora vamos falar sobre as consequências da violência no organismo:
Reações Físicas:
Fraqueza; dificuldades respiratorias; dores de cabeca; musculos tensos; sensação de aperto no peito; falta de apetite; choro; taquicardia; disturbios do sono, etc.
Reações psicológicas:
Medo; Desconfiança e insegurança; raiva; culpa; vergonha; diminuição da auto-estima e auto-confiança; depressão; evitamento; isolamento;confusão mental.
Reações Sociais:
Receio de não ser compreendida; necessidade de isolar-se dos amigos e familiares por vergonha ou imposição do agressor; falta de apoio e compreensão das pessoas próximas e de algumas instituições.
Onde procurar ajuda:
Uma vítima de violência doméstica pode:
Procurar ajuda e aconselhamento jurídico gratuito
Pedir à policia para intervir na sua proteção
Obter ajuda para encontrar habitação de emergência alternativa
Recorrer ao tribunal para manter o agressor longe da sua casa
Obter ajuda de organizações especializadas em violência doméstica que podem oferecer-lhe aconselhamento e apoio quer decida agir ou não.
A violência doméstica é considerada crime no Reino Unido.
Alguns contatos úteis:
*Linha de Apoio à Violência Doméstica de Inglaterra: 0808 2000 247 
*Linha de Apoio às Mulheres que sofrem de Violência Doméstica da Irlanda do Norte - 24horas:    028 9033 1818 
*Linha de Apoio à Violência Doméstica da Escócia: 0800 027 1234 
*Linha de Apoio à Violência Doméstica do País de Gales: 0808 80 10 800 
*Numa emergência deve manter-se calma e ligar para o 999
A Woman’s Aid apoia as mulheres em qualquer decisão que tomem para o seu futuro e têm inclusivé  acolhimento imediato para mulheres e seus filhos que fogem de situações de abuso doméstico.
O direito da mulher viver sem violência, sem tortura e sem ser tratada de forma cruel, desumana ou degradante é protegido pelos Artigos 3 e 5 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao abrigo desta declaração, cada ser humano tem o direito à vida, liberdade e segurança. A violência doméstica é uma infração a todos os direitos das mulheres. 

 

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