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Cancer de mama

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Olá Dra Maria Leonor
Sou a C....... (por favor não ponha o meu nome), tenho 59 anos, sou casada e tenho um pequeno negócio em Birmingham. Nasci em Portugal numa aldeia perto de Chaves e estou aqui em Inglaterra há 12 anos. Gosto muito do que escreve, pois tudo o que diz vai direitinho ao coração. Tenho uma amiga inglesa que tem o mesmo problema que eu e quando vê o Jornal, pede logo à minha filha para traduzir tudo.
Minha querida, há 6 anos tive cancro da mama e tiveram que tirar o meu seio direito, e há 4 anos atrás fiz outra operação e tiraram-me o útero. A verdade é que o cancro além de levar o meu seio e o útero também levou a minha alegria e felicidade. Sou uma pessoa sempre triste e sempre preocupada que as pessoas notem a minha deficiência no peito.
Todos os dias penso que o cancro vai voltar, e isso deixa-me muito deprimida. Não tenho gosto em arranjar-me e olhe que eu até era vaidosa, e nunca mais fui a uma praia.
O meu casamento também ficou muito afetado. Estou casada há 38 anos, e sempre fomos um casal muito amigo e sempre trabalhamos juntos para conseguir dar uma boa educação aos nossos filhos e ter a nossa casinha e o negócio mas depois da minha operação tudo mudou. Eu não gosto que o meu marido se encoste a mim ou que me toque ou abrace. Estou sempre a evitá-lo, tenho muita vergonha do meu corpo, e não deixo que ele  veja a minha cicatriz (...) Ele é um bom homem, mas noto que também está muito abatido e triste.
Por favor pode escrever algumas palavras para mim? Se vier a Birmingham venha visitar-me, gostava muito de a conhecer pessoalmente,
Um grande beijinho, C.......
Querida C. foi impossível ler o seu email e não ficar profundamente comovida com o seu caso.
Obrigada pelas suas amáveis palavras. Fico muito feliz que a sua amiga inglesa goste do nosso Jornal português. Também o meu obrigado à sua filha pela tradução que ela faz.
Em Janeiro de 1996 comecei a trabalhar com proteses mamárias e esse trabalho levou-me a conhecer muitas senhoras que passaram por essa traumática operação. Apesar de não ter comentado no seu email, acredito que tenha passado por todo o pós-tratamento que se dá a doentes oncológicos, e na maioria dos casos há um acompanhamento psicológico hospitar e até domiciliar. Por isso não vou entrar em termos técnicos e sim concentrar-me sómente no que me pede: que eu “lhe escreva algumas palavrinhas”.
Ao viver uma experiência como o cancro da mama, é comum a mulher sentir-se revoltada ou magoada, confusa, cansada, triste, preocupada, sentir medo, angustia, com uma forte sensação de incerteza e falta de controlo.... Estas emoções podem surgir em qualquer uma das etapas de desenvolvimento da doença, do tratamento ou mesmo depois de este terminar, tudo isso acaba por fragilizar psicológicamente a mulher. Tudo isto é normal. Os sintomas psicológicos de depressão, diminuição da auto estima e da imagem corporal também estão presentes
Mas a nível familiar também se notam mudanças significativas, como por exemplo, surgirem dificuldades na intimidade e relacionamento sexual do casal.
A doença também poderá ocasionar stress nos restantes membros da família.
Na parte social é muito comum a mulher isolar-se dos parentes e amigos.
Sabe querida C. nem todas as mulheres reagem da mesma maneira à doença mas durante os anos em que lidei com todas as senhoras mastectomizadas, pude constatar que as mulheres que tinham uma vida mais tranquila e que aceitavam a doença como uma nova etapa da vida, eram alegres, tinham bons casamentos e transmitiam conforto e segurança à própria família e aos que as rodeavam. Em oposto as mulheres que viviam em constante revolta, medo e angústia, nao gostavam da companhia das outras, isolavam-se mais e traziam mais sofrimento para elas e para a família também.
O cancro é uma doença da mente, do corpo e do espírito. Um espírito positivo e pró-ativo, contribuirá para que o combatente do cancro seja um sobrevivente. Sentimentos de raiva e amargura além de outras emoções, colocam o organismo mais enfraquecido, num ambiente setressante.
E por favor nunca mais diga ou repita que é uma  DEFICIENTE. Você não é uma deficiente. Você passou pelo terrivel trauma de uma das mais temíveis e crueis doencas; O CANCRO, Toda a gente tem medo dessa palavra, ainda por cima quando atinge o seio, ele trás uma mutilação física e mental. Você é uma sobrevivente. Você está VIVA. Se o cancro vai voltar ou não isso pertence ao futuro; não estrague o seu presente com aquilo que desconhece. O futuro e a nossa vida a Deus pertencem.  Cultive um espírito mais manso, amoroso e tranquilo, aprenda a relaxar, a olhar e a cuidar mais de si. Saiba definir as suas prioridades, aquilo que realmente merece ou não o seu tempo, carinho e atenção.  A C.... disse que antes da doença era vaidosa, pois então não há razão para deixar de o ser. Compre uma roupa bonita, faça um bonito corte de cabelo, invente-se.
Hoje em dia as próteses são ultra confortáveis e seguras. Pode nadar, fazer ginástica, ter uma vida ativa e normal, que elas não se movem do lugar, se é isso que a preocupa.
Continue a trabalhar no seu negócio, espalhe alegria ao seu redor. Desafio-a a pertencer a um grupo voluntário de apoio a mulheres com cancro de mama. Tenho a certeza que a sua experiência vai ajudar muitas mulheres, que também se sentem perdidas.
Para terminar, quero falar sobre o seu casamento. Porquê afastar seu marido e companheiro? Ele melhor que ninguém conhece o seu corpo, e não vai ser uma cicatriz que o vai pôr a correr. 
Já imaginou se fosse ele a fazer uma operação em que tivesse que ser retirado algum membro? E se fosse ele a ter cancro na próstata, será que a C.... ia embora e o abandonava? Ou gostaria de ficar ao seu lado e dar-lhe todo o seu carinho e apoio? Como se sentiria se ele a repudiasse?
Por favor minha querida C. pense no que está a transformar a sua vida.
Ser mulher não é só do pescoço para baixo; ser MULHER é ter  defeitos e virtudes, é estar doente e lutar com a doença, é ter sensibilidade, é ter filhos e cuidar deles, é ter a capacidade de conduzir a vida pelo caminho espinhoso do dia a dia e olhar em frente com a esperança dum novo amanhã. É  saber olhar para seu marido e ver nele seu porto seguro, onde pode encontrar carinho e descanso. Ser mulher é  ser espiritual, é saber que nada somos nesta vida sem o conforto vindo de Nosso Pai, e isso só pode acontecer se formos humildes e depositarmos Nele toda a nossa confiança.
Querida C. sinta-se abraçada com muito carinho,
Maria Leonor
 

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