Numa história de séculos, Portugal foi deixando em todo o mundo um importante património cultural e humano com um precioso valor diplomático. É prioritário fortalecer esses laços
Há no nosso país um distanciamento inexplicável em relação aos portugueses residentes no estrangeiro, tanto por parte da sociedade como das instituições. E isto é incompreensível à luz da nossa história de séculos, que foi deixando um importante património histórico, cultural e humano por todos os continentes, e da estrutura da
nossa população, visto que não há quem não tenha um familiar ou um amigo a viver fora do país.
Os portugueses estão literalmente espalhados por todo o mundo, o que constitui uma riqueza inquestionável e um trunfo económico e diplomático de grande valor. Todos esses milhões de portugueses de várias gerações estão apenas à espera de um sinal mais visível para se envolverem activamente nos destinos no país, o que seria de grande importância tanto para eles como para Portugal.
No entanto, esta realidade tão óbvia e ao mesmo tempo tão distante contém em si contradições. Não obstante as migrações serem estruturantes da nossa identidade colectiva e da nossa história, a sociedade portuguesa continua a ter em relação aos residentes no exterior uma certa forma de preconceito, ao ponto de os fazerem sentir-se estranhos no seu próprio país. O que é incompreensível. Tal como é incompreensível que se continue a utilizar indiscriminadamente a palavra "emigrante" para designar tanto os portugueses que saíram de Portugal como os que nasceram nos países que acolheram os seus pais.
Fruto das vicissitudes da nossa história, particularmente como consequência dos fluxos migratórios a partir dos anos 60, em que a grande maioria dos portugueses abandonavam o país pobres e sem escolaridade e iam viver em condições muito precárias, a palavra "emigrante" foi adquirindo ao longo dos anos uma carga negativa. Com a sua ascensão social e a afirmação das novas gerações, a palavra "emigrante" foi-se tornando cada vez mais desagradável e incómoda, pelo seu significado pesado, provocando em muitos até uma certa mágoa. O ideal, portanto, é eliminar essa carga negativa banindo a palavra do nosso vocabulário e adoptando a formulação do artigo 14.o da Constituição da República, que se refere a "portugueses residentes no estrangeiro".
Muitos portugueses residentes no exterior quando vêm a Portugal são confrontados com essa situação e não gostam, pura e simplesmente, porque não querem ser vistos como estranhos. Até porque os mais antigos já estão noutra fase da sua vida e venceram todas as dificuldades, da língua, da integração, do estatuto social. Quanto aos seus filhos, esses então ainda têm menos a ver com aquele passado, embora estejam indissociavelmente ligados a ele: têm outros interesses, outros objectivos na vida, outra mentalidade, outra formação académica e profissional.
A nossa sociedade e as nossas instituições precisam de fazer um esforço muito maior para ter um relacionamento normal com todos estes portugueses. Considerá-los parte integrante da nossa nação sem qualquer tipo de reservas.
As nossas instituições, os serviços públicos, deviam ter sempre em consideração a sua situação específica de residentes no exterior, para não os fazerem sentir-se estrangeiros no seu próprio país. Além disso, não deviam ser discriminados em matérias fiscais ou patrimoniais ou nas exigências burocráticas. Bem pelo contrário. A haver discriminação, terá de ser positiva. É necessário fazer um levantamento de todas as situações que constituem um obstáculo a uma relação normal entre a nossa administração pública e os portugueses no exterior. Por exemplo, as equivalências académicas deviam ser objecto de uma análise detalhada para eliminar entraves aos jovens portugueses residentes na Europa ou em qualquer outra parte do mundo e que querem fazer valer a sua formação escolar ou profissional em Portugal.
A nossa sociedade não pode ignorar este imenso Portugal, nem considerar de forma diferente nenhum cidadão que tenha nacionalidade portuguesa. E isto deve ser uma prioridade nacional, não só porque todos esses portugueses têm muito a dar ao nosso país e querem fazê-lo, mas também porque Portugal não pode permanecer alheado de uma parte tão vasta daquilo que é o seu capital mais precioso, isto é, a sua gente, independentemente do seu percurso de vida e do país que escolheu para viver.
| < Anterior | Seguinte > |
|---|






