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Sofia Escobar - de Guimarães para o topo de um sonho

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Na nossa agenda trabalho, fazia meses que tinhamos o nome da menina de Guimarães para uma entrevista. Ou porque as agendas estavam incompatíveis, ou porque Sofia Escobar estava em digressão, ou porque um dos intervenientes estava em Portugal, o tempo arrastou a oportunidade até Março.
A entrevista foi agendada para o meio da tarde no coração de Londres, perto do teatro no elegantissímo Salão de Chá Richoux.
Antes da hora marcada, a equipa do PaLOP News já tinha reservado a mesa que daria o efeito pretendido à conversa que haveria de ter com a primeira voz feminina do mundialmente conhecido Fantasma da Ópera.
Antes da chegada da artista, um grupo de senhoras americanas assentava arraiais na mesa do lado e comentavam Londres. O espírito do local, respira-se na decoração e no trato do pessoal de atendimento.
Sofia Escobar enviou uma mensagem dizendo que estava a chegar. Era o seu dia de descanso e a deslocação era propositada para a entrevista.
A poucos minutos de distância, esperavamos a actriz portuguesa que tinha ganho Londres no Fantasma da Ópera, no West Side Story para mais tarde regressar ao papel de Christine.
As senhoras americanas, perante a presença do gravador e do nosso fotógrafo Ludgero Castanho, não descansaram enquanto não souberam quem era a pessoa que estava a ser entrevistada.
- A portuguesa que é a primeira voz do Fantasma da Ópera - disse-lhes o fotógrafo, para gáudio das senhoras que soltaram sonoros "uau" e fartos sorrisos.
Antes disso, vimos Sofia Escobar entrar vindo direita a nós.
Quebramos o gelo dos cumprimentos e entramos no trabalho.
- Tem tradições artísticas na família?
- Não própriamente. Todos nós na família temos uma veia artística mas ninguém fez disso profissão. É uma família ligada ás artes e que aprecia a arte no geral, não só a musica mas também o teatro, a pintura e a arquitectura mas nada em específico. Somos uma família de professores, médicos, advogados e por aí.
- Você foi a estreia familiar?
- Sou a "ovelha negra" por assim dizer.
- Quando se lembrou de vir para Londres estudar artes, como é que a sua família reagiu inicialmente?
- Eu tive muita sorte com a minha família. Se não fosse a minha família eu não tinha conseguido nada daquilo que consegui até hoje. Sempre me apoiaram desde o início a fazer teatro e mesmo quando comecei a ter aulas de canto. No fundo, acho que a minha família acreditou em mim e viram que este era o caminho que me iria fazer feliz no futuro. Muitas vezes os pais têm algum receio deste género de decisões.
- Os seus pais também tiveram?
- Claro que sim. Há sempre o medo de as coisas não correrem bem mas a verdade é que hoje em dia, ter um diploma em muitas outras coisas não é garantia de absolutamente nada.
- Mas ganhar a quantidade de prémios que você já ganhou é?
- É. Felizmente tem corrido muito bem. Já fui nomeda para vários prémios e ganhei alguns deles.
- Esses prémios todos que tem vindo a colecionar ao longo da vida levam a outra questão. Cristiano Ronaldo ou José Mourinho tornaram-se profissionais muito caros para o futebol português. O cachet da Sofia Escobar é muito caro para o show business português?
- Não diria que estou inacessível mas é óbvio que todas essas coisas no currículum de um artista vão pesar. Quando comecei nem eu tinha aspirações de cobrar tanto aquilo que posso cobrar agora para participar num espectáculo mas também tenho muito em consideração o que é que vou fazer e muitas vezes envolvo-me com projectos pura e simplesmente porque acredito no projecto e não quer dizer que tenha que ser necessáriamente que ser inatingível.
- Não tem as portas fechadas ao mercado de trabalho em Portugal?
- Não, de forma nenhuma.
- Até porque passou pelos Morangos com Açucar.
- É verdade. Foi muito engraçado. Foi uma experiência que eu perseguia à bastante tempo porque a televisão é uma área que eu não conheço práticamente nada. Entretanto, fiz trabalho em palco, sempre fiz teatro em contacto directo com o púlico e não tinha ideia de como é que as coisas funcionam em televisão. Para mim foi uma oportunidade para aprender. Encarei a experiência como aprendizagem.
- Repetia?
- Eu gostava de fazer mais televisão mas acho que tenho que investir mais na minha formação para televisão porque é um trabalho completamente diferente.
- Ser-se telegénico é mais exigente?
- É um nível diferente de exigência. No teatro eu tenho pelo menos um mês de ensaios em que estou lá todos os dias e posso trabalhar o personagem a um nível profundo; todos os dias vamos para casa pensar sobre o que é que a personagem fez e o que não fez que poderia ou deveria ter feito. Podemos refletir no que aconteceu em cada cena e há uma continuidade, ou seja, tenho uma viagem do princípio até ao fim do desempenho.
- A rotina do espectáculo não a incomoda?
- Não porque acho que isso depende dos atores e da forma como as pessoas encaram o trabalho. No meu caso, gosto de descobrir coisas novas todos os dias, acho que é por causa disso que o trabalho em teatro é mágico. Todos os espectáculos são únicos e diferentes.
- Quando é que aconteceu o big bang da Sofia Escobar?
- Acho que foi precisamente quando fiz audições para o Fantasma da Ópera em Londres embora eu tenha começado a fazer teatro aos 13 anos. Lembro-me desde muito cedo de inventar histórias, de brincar com palcos, de cantar em cima de mesas para as bonecas e coisas desse género. Acho que no fundo, sempre fez parte.
- Se tivesse que escolher entre a dança, o canto ou o teatro?
- A dança é o meu ponto fraco. Nunca tive prémio nenhum em dança. Tudo o que envolve a coreografia nos espectáculos é o meu maior desafio embora cada vez menos porque cada vez tenho mais ajuda nesse sentido. No caso de Christine, é suposto ela ser uma bailarina e eu tive que trabalhar muito para conseguir passar despercebida no meio das bailarinas que são todas excelentes.
- Quando você cruza Londres e passa pela máscara que publicita o espectáculo, o que é que sente?
- É muito engraçado. Ás vezes vou no autocarro e vejo a publicidade do "Fantasma da Ópera" e isso para mim ás vezes é um bocado surreal. Primeiro porque eu sempre sonhei fazer este papel.
- Sonhou mesmo com este papel em particular?
- É um papel de eleição de qualquer actriz soprano. A Christine é de facto um sonho tornado realidade, sem dúvida.
- Podemos dizer que dentro da Sofia Escobar existe um "Fernão Capelo Gaivota"?
- Esse é um dos meus livros preferidos. Esse livro faz parte da minha vida. É aquela coisa de sentir desde muito cedo que há alguma coisa de diferente. Eu sempre senti isso quando andava na escola, no meio de colegas e amigos, todos os projectos que eles tinham para o futuro, eu nunca consegyui vive-los da mesma forma porque não eram os meus. Não era aquilo que eu tinha cá dentro e que precisava de se libertar. Eu sempre quis mais sem saber exactamente o que era porque durante muito tempo eu pensava que queria ser atriz ou cantora mas pareceia uma coisa tão utópica, tão fora do meu alcance que eu quase me forçava a tentar encaixar naquilo que é a norma como tirar um curso normal numa universidade, fazer uma vida normal, casar, ter filhos...
- Sem fazer ondas no mar, como canta Rui Veloso?
- Exactamente.
- Como é que a sua família e os seus amigos reagem a tudo isto? Vêm aqui visitá-la?
- Sim. Todos eles já vieram ver o espectáculo. No fundo a minha família tem um orgulho enorme naquilo que faço e para mim é dificíl explicar a sensação. Tudo isto foi um trabalho de equipa. Eu nunca sinto que fiz isto sózinha. Se não fossem os meus pais e o apoio dos meus amigos não teria conseguido. Houve muitos momentos em que pensei "deixar cair" pensando que não era capaz e em me ir embora para casa mesmo sem saber o que ía fazer e muitas, muitas vezes foram os meus pais do outro lado ao telefone e dizer-me que eu era capaz, a apagar os meus dias maus e a prometer que amanhã seria sempre um dia melhor.Tudo isto, quando tinhamos a casa hipotecada por minha causa para que eu pudesse fazer os meus estudos em Londres e tudo isto foi um peso muito grande na minha consciência. Eu sabia que daí a dois anos eu teria que começar a pagar o empréstimo e havia o medo de eu não conseguir, de que as coisas pudessem não correr bem e a minha família iria pagar o preço de terem acreditado em mim. Foram muitas noites sem dormir.
- Quando estava na paragem do autocarro e recebeu o telefonema a dizer que tinha sido escolhida, a temperatura do seu corpo mudou?
- Mudou a temperatura do corpo e mudou tudo. Tive que me sentar durante mais ou menos meia hora até conseguir pegar no telefone e telefonar a toda a gente.
- Qual foi a primeira pessoa a quem telefonou?
- Aos meus pais. Foram os primeiros a saber.
- Responderam logo ou fez-se um momento de silêncio ao telefone?
- Fez-se um momento de silêncio. Eu sentia a energia deles deste lado. No fundo, foi muito tempo de provas e testes. Foram 8 meses.
- Equaciona a possibilidade de um dia regressar a Portugal?
- Equaciono sim. Tenho muitas saudades e para mim é muito complicado porque sou muito ligada a Portugal, à língua e ás pessoas. Em Portugal a qualidade de vida é muito diferente daquela que temos em Londres. Acho que quem vive em Portugal não se dá conta daquilo que tem. Aqui é tudo muito vocacionado para o trabalho, para a carreira. Por um lado é bom mas por outro é a saudade de Portugal.
- A Sofia Escobar é uma jovem muito responsável a avaliar pelo discurso em relação à carreira e à família. Já percebeu a sua responsabilidade em relação ás centenas de milhar de portugueses que vivem no Reino Unido?
- Penso nisso muitas vezes. Recebo imensas mensagens de portugueses pelo Mundo fora orgulhosos daquilo que eu tenho conseguido. Muitos deles daqui, muitos a pedirem conselhos sobre como gerir as próprias carreiras, a saber onde podem estudar; tento responder a toda a gente mas muitas vezes é complicado consegui-lo. Para mim é um orgulho sentir esse apoio da comunidade portuguesa.
- Há quanto tempo está em Londres?
- Vai fazer cinco anos.
- Alguma vez foi ao Dia de Portugal?
- Não, nunca fui.  Estive quase para ir no ano passado e não pude por questões relacionadas com trabalho mas os meus amigos portugueses foram e telefonaram-me a dizer o que eu estava a perder já que eles estavam a comer bifanas e frango de churrasco. Tive muita pena de não ter podido ir.
- Tem muitos amigos portugueses aqui?
- Sim, tenho.
- Quando quer matar a saudade da comida, onde é que costuma ir?
- Ao Estrela em Stockwell.
- Conhece bem o Little Portugal?
- Sim conheço.
- Quando por lá passa, as pessoas reconhecem-na?
- Sim. muitas vezes vêm falar comigo, dar-me os parabéns. Nunca ninguém me incomodou. Sempre coisas muito positivas.
- Também costuma ir à mercearia comprar produtos portugueses?
- Também e embora não seja fácil de encontrar também vou comprar bacalhau. Ás vezes a mãe também manda pelo correio.
- Qual é o seu prato preferido?
- É mesmo o nosso bacalhau com batata a murro.
- Trocava o palco pela televisão?
- Não. Se tivesse que ser uma decisão definitiva, não. Acho que sentiria muito a falta do palco.
- Como é que descreve o aplauso?
- É fantástico. Todas as noites, quando eu faço a Christine e tenho a minha parte dos agradecimentos e vejo a reação do público e vejo 1300 pessoas, todos os dias a assistir ao espectáculo, é incrível. É um daqueles momentos em que mesmo que eu tenha tido um dia mau, que eu esteja mais triste ou com mais saudades de casa, é o momento eu que eu vejo que tudo o que fiz para chegar até aqui, valeu a pena.
- Amália Rodrigues, já perto do fim da carreira referiu que cada vez que entrava em palco lhe dava um "frio na barriga". Também lhe acontece?
- Sim e acho que isso é bom. O excesso de confiança é mau mas aquela adrenalina de pisar o palco é necessária. Acho que precisamos disso. Não sentir nada é estranho, é sinal que alguma coisa não está bem sabendo que há mil e 300 pessoas a assistir e que num espectáculo ao vivo há sempre pequenas coisas que podem correr mal, ás vezes pequenas falhas técnicas que podem acontecer.
- Que o público nem percebe!?
- Outras vezs percebem. O público gosta quando alguma coisa corre mal e os atores têm que improvisar. Acontece a todos e faz parte.
- Tem algum político português de eleição?
- É melhor não me fazer essa pergunta.
- Um musico?
- É a pergunta ao contrário. Há muitos musicos que admiro em Portugal, pessoas super talentosas e alguns menos conhecidos do que outros. Creio que o compositor Artur Guimarães que trabalha muito para cinema e televisão e pouca gente o conhece.
- Escritor?
- Também é complicado mas José Saramago.
- Jogador de futebol?
- Não ligo a futebol.
- Se tivesse que escolher um restaurante em Guimarães, qual é que escolhia?
- Há vários. Come-se muito bem em Guimarães mas talvez o Papa Boa no centro da cidade.
- As autoridades portuguesas em Londres têm sido simpáticos consigo?
- Muito. Já vieram ver o espectáculo e deixaram-me muito boas recordações no West Side Story. Eu sou muito acarinhada pelos portugueses, sou muito sortuda nesse aspecto.
 

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